Entre super-heróis de rede social e salvadores da pátria, o eleitor vive no mundo real
Campanhas de direita e de esquerda no Brasil e no mundo operam como quadrinhos de mocinhos contra vilões, mas o próximo mandato será julgado por contas públicas, segurança e serviços básicos.

OPINIÃO — Este texto expressa a opinião da Redação O Dia Político.
Basta observar o comportamento das campanhas de Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na última semana antes do segundo turno de 25 de outubro para perceber que a política contemporânea adotou a gramática das histórias em quadrinhos. Como satiriza a Liga da Urna publicada pelo O Dia Político, direita e esquerda — no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa — apresentam seus líderes como super-heróis infalíveis em luta épica contra uma ameaça existencial.
De um lado, o eleitorado conservador enxerga no palanque do PL um escudo contra o avanço fiscal do Estado, a censura e a leniência penal, mobilizando doações milionárias de pessoas físicas (R$ 20,7 milhões declarados ao TSE) e uma engrenagem ágil de cortes digitais. De outro, a militância progressista vê no PT a barreira de proteção dos programas sociais e das instituições frente ao radicalismo, apoiada em mais de R$ 105 milhões de fundo partidário e em mobilizações sindicais e estudantis.
O custo da guerra permanente
Quando a disputa política se converte num roteiro de super-amigos contra supervilões, o debate programático é a primeira vítima. No confronto da TV Bandeirantes, o país assistiu a candidatos e comitivas mais preocupados em gerar o corte viral de trinta segundos para o celular do que em detalhar como financiarão o Orçamento de 2027, como estancarão o déficit previdenciário ou como integrarão as forças policiais contra facções criminosas.
O reflexo institucional dessa hiperpolarização aparece nos números do Tribunal Superior Eleitoral: um salto superior a 200% nas representações judiciais e quase R$ 8 milhões gastos pelas duas chapas apenas em escritórios de advocacia. Enquanto o Congresso Nacional adia votações relevantes como a PEC da Segurança Pública e Assembleias Legislativas esvaziam o plenário à espera das urnas, problemas reais seguem cobrando solução imediata — do preço do diesel impactado pela crise internacional no Estreito de Ormuz até a falta de água e o pregão milionário de limpeza urbana em Várzea Grande.
O único superpoder da democracia
Com 93% do eleitorado já decidido e as pesquisas apontando uma diferença estreita entre 50,3% e 52% dos votos válidos, a eleição de domingo será decidida por uma parcela de brasileiros que não veste capa nem frequenta arquibancada de auditório. No mundo real — fora das telas e dos efeitos especiais de campanha —, o único superpoder legítimo da democracia continua sendo o voto consciente e a lupa permanente do contribuinte sobre quem governa.
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Fonte: Redação O Dia Político











